Contemplação das nuvens

Para alimentar minha tristeza e preencher os buracos da alma, fico aqui bebendo este fermentado de arroz e inalando fumaça de incenso e tabaco torrado, nutrindo a serenidade dos meus vícios, deitado ruminante na varanda, contemplando o balé sinuoso das nuvens que desfilam mornas como anjos nus preguiçosos e benévolos numa procissão anacrônica pelos arredores bucólicos do infinito verde-jade do éden, bem acima das colunas das montanhas, flutuando arreganhadas sobre as comportas das águas do firmamento, serpentes foscas rajadas envolvendo hipnoticamente meus olhos e entretendo meus sentidos, enquanto nado em pensamentos plasmáticos, o peso letárgico do corpo quase levitando na rede, a brisa curvando os fios de fumo que sobem dos meus dedos que em gestos lentos têm despido com volúpia as horas mudas e oblongas deste dia. Pensei “estou tentando me tornar puro”.

Esse diamante precioso caiu dos meus cabelos. E fui adiante “como um José que se vende por poucos tostões em busca de um Egito distante e ignoto, a vagar por desertos errante, as estrelas queimando a pele sensível e pálida, frágil capa de carne alva, maculando o profundo da brancura com tatuagens sagradas, as marcas da luz, do ouro que no fogo purifica; para entre os ímpios revelar o segredo dos sonhos e entre os tolos erguer-me iluminado para finalmente ser elevado e proclamado.” E até pensei numa grande obra que poderia se chamar a pedagogia da santidade. Tendo armado minha tenda entre os fariseus, vivo num deserto quase perfeito, pois que eles – os outros, as criaturas alheias, funcionais e ordeiras – estão sempre por demais ocupados com a coleta dos impostos, a construção de aquedutos e estradas e o bom funcionamentos dos serviços de correios e telégrafos, o que me é deveras conveniente.

Coçam as paletas da minha alma indicando uma necessidade mais intensa e íntima, um chamado para mergulhar fundo no vazio da nanidade, nadar no limbo escorregadio e líquido e penetrar deslizando pelos veios grossos e mais remotos do xeol. Buscar a essência, a santidade do nada, a pureza do absoluto. Apenas passar sem arranhões por essa constante hermética e absurda do tempo, escorrer naturalmente como um ranho mole que desce do nariz pelo bigode.

Dois pontos uma reta. Três pontos uma curva. Compreender essa areia eternamente caindo da ampulheta relativa. Olho para o profundo da esfera do céu e penso “zênite” uma vez, depois emudeço. Nada é o que procuro. Pureza absoluta.

Ignoro, porém, a origem do acometimento desta teimosa e incômoda melancolia. Deve ser algo bem estúpido, uma banalidade espúria, não quereria ludibriar vossa venerável sapiência com devaneios filosóficos, com palavras graves para a impalpabilidade desta questão que é deveras secundária.

Sim, vejo você rindo pelo canto da boca e franzindo o sobrolho. As pessoas morrendo pelo mundo afora nesta guerra sem fim e tu que te perdes andando nas nuvens. É o que você pensa sensato dizer, mas já conhece a resposta pronta na minha língua deletéria, premida por dentes gastos e amarelados de alcatrão.

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