Relato

Estava dormindo. Sentí uns golpes. Pensei que era minha esposa correndo ao banheiro. Voltei a dormir. Os golpes me acordaram novamente. Fui até a porta. Quando a abrí comecei a sentir um zumbido. Na hora pensei que poderia haver sido causado por uma diferença de pressão provocada pela abertura da porta.La fora havia uma luz estranha que na medida que saia ficava mais intensa. Quando quis voltar não consegui. Estava no meio de um espaço branco sem absolutamente nada e, alem da luz, uma sucessão bizarra de imágens aturdia meus sentidos.

O zumbido ainda continua, mais poderia dizer que estou-me acostumando. As vezes me parece escutar sons como de folhas secas e pouco a pouco consigo adivinhar os limites de meu corpo. Suponho que estou sentado no chão como um escriba egípcio, mas com os braços fazendo um círculo noventa graus do dorso. Posso dizer que minha cabeça fica, involuntariamente, em duas posições, vertical e reclinada pouco acima dos braços. Em ocasiões, quando minha cabeça fica vertical, me parece sentir um peso cálido na parte superior dos braços e logo depois escuto o sons das folhas secas.

É impossível determinar quanto tempo faz que estou neste estado, e muito menos dizer quanto tempo vou ficar assim. Estou-me sentindo como preso, pagando por todas a cagadas que fiz e com enorme saudades dos meus. Mas ao mesmo tempo tenho aceitado esta sorte (ou desgraça) e sinto que ainda assim sou de extrema utilidade. Quando começo a pensar em todo o que tem acontecido as vezes chego à ridícula conclusão que na verdade eu morri e encarnei numa patente. Que absurdo, penso, o destino não ia a guardar essa pra mim…

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