primeiro dia - ecos

posso ter pelo menos alguns minutos de paz e sossego. posso sentar aqui enquanto os outros não param de rodar lá embaixo e o som intermitente não consegue ser barrado pelos vidros ou pelas fitas que colei nas janelas. tenho dores de cabeça dia e noite, principalmente quando acordo com o barulho dos animais aprisionados e depois não consigo mais dormir os ônibus freando e correndo. o piso é frio e felizmente tem o aquecimento central à gás. estamos no inicio de abril e as caixas com livros continuam lacradas penso não faz diferença pois quando estavam nas estantes apenas juntavam pó e traças. o elevador tem uma boa aceleração e a garagem é subterrânea com portão acionado por controle remoto. o isolamento é apenas aparente. há uma grande teia de aranha preta na sacada por onde passam as ondas incômodas. meu coração está partido e minha sanidade tenta manter o equilíbrio. meus vícios desgastaram as poucas capacidades das quais eu me vangloriava. ainda é tempo de reagir e tenho estratagemas emergenciais hiperbólicos guardados em alguma das caixas rodeadas de fita crepe, como pílulas para tosse. preciso isolar o problema com todo o cuidado, andando devagar para não tropeçar nos animais que ficam roçando nas minhas pernas, mal eu levanto para ir ao banheiro, massagear minha mandíbula e chorar em silêncio. as torradas, o patê e o queijo educadamente organizados na pequena mesa enquanto o café entra em ebulição e o leite é aquecido sem nem ao menos um apertar de botão. o som continua lá fora e parece aumentar à medida que o ângulo dos raios solares fica cada vez mais quente entrando pelos vidros e cobrindo a quadriculada toalha de mesa azul.

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