Hoje imaginei que estava com frio, e com dor no estomago, pois havia comido algo velho e mofado e fumava um cigarro. Estava com um frio doentio, a camisa de lã preta, do avesso, movimentando o corpo como uma lesma com sal nas costas. Fechei a persiana completamente. O dia estava nublado, mas dentro do quarto estava mais escuro ainda. Fui à cozinha, peguei um copo de água da garrafa plástica e olhei pela janela, os caras trabalhando na construção do prédio em frente. Eu estava realmente mal e me sentia sujo e, como todos os dias, disse para mim mesmo que as coisas seriam diferentes, que eu acreditaria nas mudanças e encontraria um sentido para a porra toda. Estes empurrões sempre pela metade, se equilibrando na beirada do abismo e caindo de bunda no chão. Andava como se estivesse flutuando, em outra dimensão, talvez devido à pressão baixa causada pelo cigarro. E a tristeza e a depressão me contagiaram e fiquei realmente feliz por poder me sentir tão mal. Acho que pessoas mortas não devem conseguir se sentir mal dessa forma. Pessoas mortas devem ser as coisas mais chatas deste mundo. Além do mais pessoas mortas não conseguem sentir o frio do piso quando andam descalças. Definitivamente, eu precisava parar de fumar. Só de pensar no cigarro, me dava vontade de usar o banheiro. Foi então que tive a idéia de pular da sacada, caindo onze andares lá embaixo. Mas então eu me tornaria uma daquelas pessoas chatas. Além do mais faria a maior sujeira lá embaixo e nem teria a chance de ver a cara do primeiro que me encontrasse. Afinal, a rua é pouco movimentada, parece que estão todos mortos nesta cidade. Talvez seja isso mesmo, só eu não percebi ainda. Para mim a intenção sempre pareceu mais atraente do que a ação, por isso terminei neste lugar, poderia ter feito escolhas (ações) diferentes e hoje em dia estaria tomando chá em uma rua movimentada, vendo aquelas charretes luxuosas sendo puxadas por cavalos com enfeites na cabeça. Por outro lado tenho tempo de sobra hoje em dia. Não que isso seja bom, pois quanto mais tempo disponível, menos coisas consigo fazer. É como uma equação ao contrário, talvez um pouco de anti-matéria. As coisas poderiam ser piores, costumo sussurrar, e as poucas pessoas que me encontram na rua devem imaginar o quanto louco sou. Às vezes tenho a impressão de que já morri, de que isso é aquele limbo do qual ouvimos falar, aqueles segundos após a morte que se esticam e se tornam uma vida. Depois tenho raiva de pensar disparates deste tipo. Poderia agir com um pouco mais de firmeza, não fosse meus pés sempre estarem doídos e minhas costas doerem. Comprei vidros e vidros de xaropes revitalizantes, mas nada adiantou. Sonhei com minha avó outro dia, ela nem conseguia andar direito, milímetros por segundo. Quando tentei puxá-la, empurrá-la, a velha quase morreu. No outro dia descobri que era tudo a mesma coisa, que a semana inteira havia sido um único dia repetindo e repetindo. Comi risoto todos os dias, e todos os dias fiz a mesma coisa suja de sempre, no chão. Não me orgulho disso, não mesmo. Até rio-me por alguns minutos, mas sei o quanto desgraçado estou, apesar de vivo. É uma questão tão simples, pelo menos parece. Uma questão de lógica e autopreservação. Só de imaginar que minhas mãos doem e que comecei a ficar com alergia dos tecidos planos. Poderia ser por um motivo mais digno e eu poderia estar colhendo resultados muito mais concretos e estimulantes. Acho que consigo me levantar agora, apesar de não sentir meus joelhos. Afinal, o que foi que me atingiu? Pensei que deveria cortar o cabelo hoje, mas não imaginava que o risco seria tão grande. Eu poderia evaporar, e mesmo assim as imagens continuariam encravadas dentro de mim. Começo a pensar que talvez, se eu fosse cego, seria mais feliz. Que eu regredi e que me deixei levar por algo que ainda não consegui descrever, não consegui quantificar seu poder de persuasão. Acho que vou ficar deitado aqui pelo resto do dia.
-
Páginas
Categorias
Arquivos