depois que perdeu sua caderneta de notas, de tristeza, elisa trancou-se em seu quarto, sua pequena gaiola de vidro, e adoeceu em pensamentos profundos.
hoje, o que a perturba de verdade não é a ausência daquele objeto - um conjunto de folhas de papel pardo-claro retangulares superpostas e grampeadas na extremidade superior - mas o labirinto que criou em suas errâncias cognitivas em busca do objeto perdido. nesta busca descobriu que não tinha perdido apenas sua caderneta mas tudo no mundo. nada mais poderia sustentar-se na aparente objetividade. ela descobriu que nada jamais pode ser considerado apenas um objeto sem ser também uma relação com elisa e mesmo sem poder tocar o objeto perdido ele existe além da imagem parda e do peso da matéria. sendo assim, talvez a existência física seja definitivamente dispensável, uma vez que o objeto já se tornou um conceito independente de sua origem material, porque passou a existir em sonhos, na memória, no fundo dos olhos no arquivo longínquo das retinas, pela relação e pelas teias que foram se criando. no entanto, sem essa relação que os liga (ela e o objeto), jamais poderia tê-lo atingido; a relação foi criada necessariamente na existência do objeto e do observador, logo a relação pressupõe a existência do objeto, porém a partir do momento em que a relação foi criada o objeto pode deixar de existir como referência porque se transformou num conceito e vive no observador.
elisa gira a cadeira, levanta-se calçando as alpercatas e anda arrastando suavemente os pés pelo carpete. posta-se diante da janela, afasta o pano bordado das cortinas. abre a janela do mundo, mas não há exterior, apenas a janela.
assim fica difícil encontrar a unidade com o que foi perdido, ela pensa em silêncio, já que não há necessidade de falar. e se falasse a palavra ecoaria nos espelhos. seria monótono aguardar a extinção dos reflexos do verbo. no entanto os espelhos não existem, ela nem sabe disso.
vai até a cômoda e dá corda na caixinha de música, deixa a bailarina a rodar sobre o gelo eterno. passa o telefone para a secretária eletrônica porque sabe que neste instante eu estou com os meus dedos deslizando sobre o teclado. quando chamo é a secretária que atente. eu sei que elisa fecha os olhos para ouvir; deixo uma mensagem carinhosa e peço que me ligue quando estiver de volta. ela fica feliz um instante porque pensa que acredito que ela vai conseguir sair. e eu me sinto aliviado, porque ainda há esse fio que nos liga e me permite continuar existindo.