Lourdes Cornett sentiu quando a faca atravessou as vísceras naquela tarde de quarta feira, em pleno calçadão movimentado a apenas uma quadra da sua casa. Trazia uma dúzia de ovos que se espatifaram pelo chão e se misturaram com o sangue gotejante. Enquanto sua barriga era aberta como a de um porco ela viu Deus por duas vezes. As pessoas passavam em volta imaginando que os dois estavam apenas envergando uma performance. Com caretas e olhares de nojo os pedestres olhavam o bizarro casal em sua dança assíncrona. O homem se chamava Fritz Hochwann, tinha olhar penetrante, nariz aquilino, testa esticada como a de Tutankamon. Ele a envolvia com o sobretudo e os dois formavam uma única criatura com quatro patas que rodava sobre o calçadão, pisando na mistura rubro laranja transparente que bem poderiam ser os ingredientes para um bolo. Giravam e giravam e ela descobriu que apenas a explosão do sol poderia acabar com aquele sentimento de liberdade que invadia todo o seu corpo, como se ela estivesse finalmente livre de todos os seus compromissos naquela miserável existência, principalmente a função de abrir as pernas para seu insípido marido, o renomado senhor Aurélio Soliveri, que apesar de intelectual internacionalmente renomado, trata Lourdes como um mero conjunto de três orifícios penetráveis no qual ele pode despejar suas necessidades fisiológicas, que substitui sua boneca inflável quando ele não está viajando pelo mundo. Agora o gozo era de Lourdes, o primeiro e o último. E todos veriam seu sêmen vermelho e poderiam pisoteá-lo e levá-lo para casa em seus sapatos. Foi então que Fritz caiu a seus pés e Lourdes descobriu que o sangue em realidade era dele. Seu primeiro impulso foi atirar a faca presenteada pelo marido na lata de lixo mais próxima, depois correu até o mercado para comprar mais uma dúzia de ovos.
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