em breve, foi um pedaço do que ela disse e eu não entendi, ou algo que imaginei e gostaria que ela tivesse sido clara, que estivesse falando comigo. por alguns instantes eu tinha certeza de tudo: de que ela estava ali, que respirava, podia sentir seu bafo quente em minha cara, como o mormaço do asfalto nos dias de chuva e sol de verão. por um momento eu tive certezas, mas depois fui engolido pela nebulosidade. e logo voltei a gravitar, tonto em seus olhos, amarrado ao nó do seu avental que balança como o mar quando ela volta para trás do balcão. eu sempre me deixo encantar. sou louco e brega, queria dizer-lhe, caio em tentação, me deixo apaixonar. por que ela continua me olhando? serve um café com uísque e chantilly, vem mais uma vez e troca meu cinzeiro. eu não devia beber, nem pensar, nem fumar. por ela? por quem então? viro minha ampulheta e agora ela traz um uísque sem gelo, porque quero suas mãos quentes. deveria sair mas essa cadeira não me larga, eu te amo, eu te adoro, eu te desejo, eu me lambuzo em tua língua úmida, em tua pele suada, em tuas entranhas molhadas que sempre me desdobro para imaginar. se eu, se eu, se eu, mas não. não consigo fugir disso, nem de mim mesmo nem de você, ou dessa mesa que gira e desses objetos sobre a mesa e das lâmpadas quentes do café. eu de novo todo dia, sempre o mesmo canto e mesma mesa, e ela que sempre vem, e me atende, e toca o que me serve, e eu tonto sempre gravito, que será isso? oh, seus olhos: poderia nadar em seus olhos até o fim dos tempos sem nunca magoá-la. e acabo minhas doses, e acabo meu café, e termino meu cigarro. eu sei que ela me perdoa por tudo enquanto lava os copos; seu corpo fala em movimentos ondulantes, meu cérebro capta e decifra e entende suas mensagens. e finalmente, quando ela traz a conta eu sei que é minha remissão, e sorrio humilde e contrito. no caminho de casa vou pagando meus pecados.
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