O senhor B. chegou em nossa casa por volta das 12 e começou a falar sobre suas últimas descobertas, que consistem basicamente no líquido fosforescente. Todos resolveram participar da conversa e sentaram-se em volta dele, com diversos modelos diferentes de cadeira, dependendo do autor de cada um. À medida que a noite caia e todos se esforçavam para não correr ao banheiro para mijar ou mesmo vomitar, com nojo das explicações insalubres do doutor L., ao mesmo tempo todos entravam na velha brincadeira dos dedos cruzados e das inscrições com agulhas ultrafinas na pele coberta por limo marrom. O cientista em questão tirou do paletó um conjunto de tubos de ensaio esfumaçantes e o grupo atacou-o e nocauteou-o a tempo, antes que o louco pudesse estilhaçar os tubos no chão, contaminando todo o ambiente com o seu vírus maligno. Mister Bradley era o seu nome, Mister Lee também servia como título. Sua boca mexia vagarosamente, por onde ele expelia aquela voz mecânica e podíamos ver que sua cara era composta de imagens sobrepostas. Provavelmente ele trabalhava para algum governo rival ou raça alienígena disposta a nos destruir. Durante a noite, enquanto mantivemos ele ajoelhado e amarrado no minúsculo quarto utilizado para guardar as ferramentas para limpeza, o homem, ou o que quer que fosse, cantava um mantra perigoso, provavelmente querendo contatar seus superiores através do fluxo de informações. Decidimos então tapar sua boca asquerosa com uma fita especial, providenciada por Júpiter, que tremia nervoso e pediu para tomar um banho no lago. Como poderíamos negar tal coisa para o pobre rapaz? Como adivinharíamos que ele seria sugado para o pântano e voltaria dois dias depois, com a perna direita completamente devorada, murmurando alguma coisa, que parecia mais uma respiração problemática do que palavras gesticuladas. No dia seguinte ao desaparecimento de Júpiter, resolvemos fazer uma boa faxina na casa, foi quando encontramos Mister Bradley completamente nu, ainda amarrado, mas sem a fita que lhe cobria a boca. Tinha algo que lhe escorria através de uma traqueotomia, mas não havia nenhum sinal de violência em seu corpo. Não poderia continuar com isso, não posso continuar com isso. As tentativas são sempre falhas. Nunca se consegue um fio condutor. Tenho fome e tento controlar meus vícios. Preparei uma carta para a companhia telefônica, está ali em cima do mesmo móvel onde coloco a impressora. Preciso reescrever a carta com o local e a data no cabeçalho. Isso é o mínimo que se pede em uma carta comercial de reclamação. O vídeo acabou e eu tenho vontade de comer mais um pedaço de queijo podre, o bom e podre queijo podre. Meu almoço hoje não foi satisfatório, eu preferiria ter comido ovos fritos ao invés de cozidos, no entanto estes últimos são mais fáceis de preparar. As palavras são vírus que se multiplicam e precisam ser expelidos a qualquer custo. Elas têm vida própria e nosso trabalho é apenas rearranjá-las, recombiná-las e torná-las um conjunto razoavelmente degustável. Mister Bradley sabia muito bem disso e Júpiter teve uma iluminação momentânea dos fatos, por isso quase foi sugado pelo pântano. Neste instante Júpiter entra na casa. Da sua perna direita só lhe resta a lembrança. O sangue goteja todo o hall de entrada. Peço a ele para sentar-se e chamo os para-médicos. Jonas vem correndo e abraça Júpiter, que nesse momento desmaia. As paredes da casa refletem a angústia dos outros, em suas cadeiras diferentes, às minhas costas. Recolho-me. Com seu avental branco, Júpiter caminha pela sala e dirige-se a sacada. De lá ele olha para a cidade a sua frente, para a noite, para o céu e as estrelas. Canta como não cantava há muito tempo. Vai ao banheiro e masturba-se durante trinta minutos. Liga para seus amigos e parentes próximos e conta as novidades, tentando manter a voz firme e certeira, como um homem decidido. Desce até a garagem e pega seu carro. Dirige até um bar de esquina, velho e esfumaçado e puxa conversa com o caolho, um de seus velhos conhecidos, de anos mesmo. O senhor lhe aconselha, fala para ele tomar cuidado com seu comportamento autodestrutivo, com o isolamento e a bebida, com os delírios, a má alimentação e a falta de exercícios. Ele concorda com a cabeça, fazendo um sinal positivo para cada um dos tópicos citados pelo velho. Uma bela mulher entra no bar e ele a imagina de quatro, depois pensa se ela chupa bem. Resolve sentar ao seu lado, o velho sorri à distância. Ele fica completamente idiotizado com a beleza daquela mulher. Pensa em constituir família com ela, ter um par de guris e ir morar no campo. Antes de falar qualquer coisa ele abre os olhos, está amarrado a uma mesa de operações. Mister Bradley o observa sorridente. Pede a enfermeira uma seringa cheia de um líquido fosforescente, que é injetado em seu braço.
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