Chove como se a ordem superior tivesse decidido ser direito tirar de uma vez e definitivamente o encardido dos telhados, as cracas de musgos que penetram as raízes nas fissuras do amianto e que quando a gente olha bem de perto, com uma lupa ou mesmo a olho nu, se não se for muito zarolho, percebe as plantinhas como vegetações milenares, formando uma segunda camada protetora sobre as cabeças dos homens; essa chuva como se fosse tempo de arrastar todo o lixo das ruas para os bueiros, afogando ratos, baratas e sapos e forçando as minhocas a subir pelos ralos de banheiro para dentro das casas, provocando o espanto repugnado das madames e o desgosto resignado das pobres empregadas, com seus esfregões a esmagar os vermes espalhando a meleca grudenta nas frestas dos azulejos. Sempre que Cronopio toma banho nesses dias acaba pisando uma dúzia deles, mas não perde a compostura por que sabe que estão subindo de todos os buracos do chão e vão se enfiar também embaixo das chinelas das velhas cegas e acabar como uma mancha esticada de gosma num tapete qualquer. E é uma chuva para acender cigarros e ficar protegido pelos vidros da janela, e ele se sentia bem com seu pequeno café doce, apesar das botas encharcadas e um frio na boca do estômago, mas esse bem estar era provisório, pois seu inconveniente amigo Fama estaria chegando, não demoraria mais que uma hora, mesmo com todo o congestionamento e humor úmido que estes dias trazem a tiracolo. Os que tinham outros planos para o dia certamente sofrem alterações no ânimo e, desnorteados, buscam um caminho curto para fugir para casa e pensar em outra coisa para fazer, ou simplesmente maldizem os meteorologistas, a falta de estrutura urbana e as inconstâncias da natureza. Mas amigo fama gosta de perturbar Cronopio em dias de chuva, por causa de suas botas que sempre encharcam.
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