Sobre o Satunsat

SATUNSAT - Construção do sentido em labirinto - Coerência Textual

1. A construção do sentido do texto

No estudo do texto, a primeira necessidade que aparece ao lingüista é a definição de seu objeto de estudo. Na tentativa de abranger e delimitar o fenômeno ‘texto’ (deixar claro o que é e o que não é texto), procurou-se, ao longo da história dos estudos lingüísticos, estabelecer critérios que o definissem, primeiramente em oposição a outras estruturas, como a frase, e mais tarde buscando determinar um critério pelo qual se julgaria e se definiria o texto. Nesta busca, chegou-se ao critério da textualidade, que parece ser capaz de caracterizá-lo definitivamente. Segundo Koch & Travaglia (1), “a textualidade ou a textura é aquilo que faz de uma seqüência lingüística um texto e não um amontoado aleatório de palavras. A seqüência é percebida como texto quando aquele que a recebe é capaz de percebê-la como uma unidade significativa global”.

Talvez não tenhamos dificuldades em identificar na seqüência abaixo uma modalidade de texto. Está explícito que se trata de uma carta, como dito no próprio título. Logo após o título, vem a apresentação do remetente e do destinatário; em seguida a saudação, o corpo da carta, a identificação do remetente e, por fim, uma informação complementar sobre o local e ocasião em que a carta foi encontrada. No entanto, apesar da macro-estrutura do texto possibilitar um alto nível de interpretabilidade, o corpo da carta parece ‘um amontoado aleatório de palavras’.

CARTA*

de um cronópio moribundo, dirigida ao pequeno filho do meio, de nome impronunciável, com idade de sobra e juízo de menos.

filho:

quando tocas o chão tocas a vida sem tentar sair de dentro do copo túnel xícara fogo pessoa mulher mar voar planar mergulhar agir viver sofrer entreter locomover entorpecer utilizar folhas árvores plantas vermes gatos cavalos trens aeroportos música viagem nuvens turbulentas sobre cidades absurdas força foices sangue correntes de ferro fundido derretido convertido em armas areia cavernas solidão luz tempo relógio prisão infinita intransponível amigos parentes cabeças cérebros idéias sentimentos amor paixão ódio inveja egoísmo raiva dor cabelos brancos sobre a mesa de vidro moedas isqueiro dinheiro livros grampeador computador vinho cigarros folha de papel branco sobre o grampo foi navio liberdade maldade diversidade peles pentelhos espelhos mamilos mamilos mamilos ecos negócios mergulhos maratona distância infância ganância inocência adolescência inflorescência decência demência maleficência turbulência adulto adulto adulto deveres compromissos correr pensar agir trepar amar sofrer não crer evitar tentar entender negar voltar contar chorar matar moscas baratas lagartixas formigas aranhas piranhas nuas depiladas tratadas medicadas envernizadas empalhadas faceiras matreiras faxineiras torneiras goteiras bandeiras suadas malhadas ocupadas mal amadas retalhadas indisciplinadas lavadas asseadas putas agonia unhas cabelos formigueiros terreiros viveiros livreiros novelos cortejos enterros espelhos.

seu pai.

* encontrada perto da poeira molhada pela chuva embaixo da estante grande da sala após o festim tradicional bi-anual pela independência.

Um dos princípios fundamentais de interpretabilidade de um texto é a coerência. Conforme Koch, coerência é “o modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a construir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentido”. De modo que, se não conseguimos estabelecer esta configuração veiculadora de sentido, podemos dizer que o texto não faz sentido, que o mesmo é incoerente – o que faz do mesmo um não-texto (o texto só existe quando percebido como unidade significativa). No entanto, Koch afirma que não existe o texto incoerente em si, mas que o texto pode ser incoerente em/para determinada situação comunicativa (2). Aceitando a proposição de que não existe um texto incoerente em si, somos levados a procurar fora do texto a coerência que aparentemente lhe falta. Esse mesmo movimento ocorreu na história dos estudos lingüísticos, quando se percebeu que o sentido da frase muitas vezes estava fora dos seus limites e que dependia, em muitas situações, de elementos que se encontravam fora até mesmo dos limites do texto, o que se denominaria de fatores extralingüísticos.

Parece que o primeiro passo para se verificar a textualidade desse ‘amontoado aleatório de palavras’ que nos propomos analisar é assumir que existe coerência. Se no corpo do texto faltam elementos para tanto, é preciso olhar ao redor para encontrar os elementos que nos permitirão interpretá-lo, procurar esses elementos subjacentes, através de determinadas estratégias. Antes de nos lançarmos para além dos limites do ‘texto-em-si’ sob análise, vejamos alguns aspectos e postulados da teoria do texto.

A noção de interação verbal parece ser bastante reveladora no sentido de iluminar os caminhos não apenas da interpretação como da produção de textos. Segundo Bakhtin (3), “toda palavra tem duas faces. Ela é determinada pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. (…) A palavra é território comum do locutor e interlocutor.”

O princípio da cooperação, de Grice, postula que nossa atitude, quando estamos diante de um texto, é a de sermos cooperativos para com ele, partindo do pressuposto que este é coerente, esforçando-nos para poder compreendê-lo.

Pelo princípio de interpretabilidade, segundo Charolles, “o texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivo, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, uso dos recursos lingüísticos etc. Caso contrário, será coerente.”

Um dos fatores importante para a compreensão do texto é a intertextualidade, assim definida por Barthes, “o texto redistribui a língua. Uma das vias dessa reconstrução é a de permutar textos, fragmentos de textos, que existiram ou existem ao redor do texto considerado, e por fim, dentro dele mesmo; todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis.”

O conceito de texto elaborado por Koch, diz que este é uma “manifestação verbal constituída de elementos lingüísticos selecionados pelos falantes durante a atividade verbal, de modo a permitir aos parceiros, na interação, não apenas a depreensão de conteúdos semânticos, em decorrência da ativação de processos e estratégias de ordem cognitiva, como também a interação (ou atuação) de acordo com práticas socioculturais.”

Nos parece bastante claro que a responsabilidade pelo sentido do texto não é apenas de quem o produz, mas também de quem o recebe e da situação/contexto em que o texto foi originado e recebido. O princípio da interpretabilidade exige do produtor que observe certas regras e que respeite a situação comunicativa; já o princípio da cooperação espera que o leitor seja ativo, cooperativo, que se esforce para, através da interação, dos processos e estratégias cognitivos, construir o sentido do texto, uma vez que, a priori e em si, este não pode ser considerado incoerente. O texto, nesse sentido, não pode ser compreendido como um produto acabado, mas como um processo, resultado de um esforço e de operações conjuntas entre o produtor e receptor, e só existirá como texto nesta situação. Tanto produtor quanto receptor desempenham papéis ativos e conscientes, e devem estar envolvidos cooperativamente no processo de construção, que não se trata apenas de uma situação puramente lingüística, mas cognitiva, sociocultural e interacional. O fator intertextualidade é de fundamental importância nesse processo, uma vez que, como veremos, o texto em análise está inserido num contexto bastante específico, relacionando-se fortemente com outros textos num mesmo espaço circunscrito. Cientes da nossa responsabilidade em construir o sentido do texto, buscaremos construir nossa parte na elaboração do significado do mesmo, procurando encontrar primeiramente elementos dentro do próprio texto, no contexto em que ele foi gerado e, também, ativando nossos conhecimentos de mundo e de textos, criando uma segunda intertextualidade, em que o texto em análise e seu contexto se relacionam com nossa experiência com textos e nossa bagagem cultural.

2. Satunsat – Interpretação do texto em seu contexto

O texto selecionado para análise, na verdade são dois textos justapostos (aqui a intertextualidade é explícita, há uma segunda voz, a polifonia). Há um primeiro texto, a carta em si, e o texto que a envolve, inserindo-a num primeiro contexto. Partindo do corpo da carta, a primeira impressão que temos é de que aquela seqüência de palavras não faz sentido algum. No entanto, o autor do texto envolvente foi cooperativo o suficiente para oferecer ao leitor as explicações necessárias para um primeiro entendimento. Sabemos que se trata de uma carta, sabemos em que circunstâncias a carta foi redigida, quem é o remetente e quem é o destinatário, além de obtermos a informação do local e circunstâncias em que o documento foi encontrado, o que nos garante perceber a coerência do nível estrutural do texto.

Temos pistas claras do caminho a ser seguida para a interpretação do texto. Seguindo estas pistas, que se encontram dentro do próprio texto, podemos admitir uma série de inferências e expectativas. Sendo a carta de um pai moribundo a um filho ‘com juízo de menos’, nosso conhecimento de mundo, ativado pelos modelos cognitivos, permite que reconheçamos a estrutura textual (superestrutura ou esquemas textuais), uma vez que esta estrutura faz parte do nosso conhecimento elencado dos diversos tipos de textos. Esperamos, também, através de nossa experiências com situações similares (modelos cognitivos de script e esquemas), que o texto da carta mantenha um certo padrão, comum em nossa cultura, qual seja, que o pai dê seus últimos e mais importantes conselhos ao filho sobre que caminhos tomar na vida, que lhe dirija advertências etc., uma vez que nos é levado a crer que não resta ao pai muito tempo de vida, e é o que esperamos quando se redige uma carta a um filho desajuizado nessas circunstâncias. Tudo isso inferimos de nossa experiência lingüística e sócio-cultural e, agindo assim, estamos sendo cooperativos com o texto. Alguém que não conhece um tipo de texto chamado carta e as razões culturais e subjetivas que a originam, dificilmente poderá cooperar com o texto e o cálculo de seu sentido ficará prejudicado, mesmo que o autor do texto tenha se esforçado para fornecer as informações necessárias para tal cálculo. Podemos assumir, então, que o autor que apresenta a carta do cronópio moribundo alcançou seu intenção comunicativa, que é a de apresentar a carta contextualizada.

Partimos então para o corpo da carta e aí encontramos uma estrutura que não nos é familiar. Uma seqüência de palavras sem aparente relação. Esse texto é um único parágrafo, sem pontuação, sem divisão em frases, sem conectivos, desrespeitando completamente a sintaxe e as estruturas da boa formação de um texto. Nesse sentido frustra profundamente o leitor, uma vez que a expectativa gerada não se concretizou e não há pistas no texto de como o mesmo deva ser interpretado para fazer sentido. Chegou a hora de ativar outras estratégias, uma vez que o leitor deve ser cooperativo, se quiser fazer sentido. Se o texto em si não nos dá a resposta que buscamos (o que significa isso?), devemos buscar no seu contexto as pistas para a interpretação. Para entender o texto, faremos uma rápida análise do contexto em que ele está inserido, contexto que engloba não somente o corpo da carta (o texto em análise agora, redigido pelo cronópio) como o texto completo, com as notas introdutórias etc. Talvez não tenhamos nos perguntado ainda, mas o que vem a ser um cronópio? E o que é o SATUNSAT?

O Satunsat

O Satunsat é um sítio na internet, em formato de blog, do qual participam, como “enunciadores”, quatro personagens (aleph, cortazar, diego, sigval). A participação é aberta também a qualquer leitor, que poderá contribuir através dos comments (comentários às contribuições dos enunciadores). Os textos são divididos por categoria, sendo as seguintes: Agenda, Coelhos Bavarenhos, Cronópios, Dominó, Labirintos, Sinuca, Telegramas. Os textos podem ser visualizados por categoria ou na seqüência em que foram postados, sendo que os mais recentes aparecem no topo da página. Apesar do formato blog ser utilizado em larga escala na internet como ‘diário virtual’, nesta situação ele é empregado com uma filosofia de chat (bate-papo, diálogo), em que os quatro enunciadores vão fazendo suas contribuições, só que neste caso, com textos mais elaborados e uma relação dialogar característica de textos (intertextualidade explícita ou implícita). Estes textos estão obrigatoriamente relacionados aos tópicos, o que mantém a seqüência do diálogo. Agora temos uma visão geral do contexto em que nosso texto está inserido. Trata-se de um mundo textual em formação (dialogal), em que se discutem certos tópicos, entre eles os Cronópios. No entanto, esta ‘discussão’ se dá por meio de textos ficcionais, literários. Há histórias sobre um cronópio que estuda grego, outras sobre cronópio poeta em alto-mar, descrição de sonhos de um cronópio, poemas sobre um cronópio, e outros textos. A partir destes textos está se construindo essa unidade cultural ou entidade chamada cronópio. Não há nada tão explícito, o que pode parecer um jogo bem elaborado, contudo, devemos tentar conhecer melhor estas entidades, e poderemos, quem sabe, decifrar aquela carta. Nossa expectativa é que na categoria de textos sobre os Cronópios encontremos informações suficientes para tanto.

Na categoria Labirintos, a primeira contribuição (a mais antiga, o início da conversação, postado por aleph) tem o título SATUNSAT, e diz o seguinte “Para los mayas, de quienes se conserva el único laberinto antiguo realmente contruido, y todavía en pie, el edificio se llama Tza Tun Tzat (o Satunsat), que significa ‘lugar para perderse’”. A partir daí talvez comecemos a entender a estrutura subjacente aos textos que compõe o sítio. A idéia de labirinto de textos parece bastante sugestiva. Com isso em mente, antes de tomarmos o rumo de analisar nosso texto no conjunto de textos sobre os Cronópio, discutiremos um pouco o caráter dialogal do Satunsat e procuraremos outras pistas que nos ajudem a entender este mundo Satunsatiano.

O Satunsat, como já dissemos, existe sobre uma estrutura de diálogo. Os quatro enunciadores enviam seus textos que dialogam com os demais. Há o elemento temporalidade, que ajuda a caracterizar a situação de diálogo – cada contribuição leva em seu rodapé uma marca com a data e hora em que se juntou ao conjunto de textos. O conjunto dos textos é o registro de um grande diálogo que pode ser observado por qualquer agente externo (leitor), bem como pelos enunciadores (como leitores). Coexistem, então, pelo menos dois níveis de relação dialogal: os quatro enunciadores entre si, e os leitores com os enunciadores. Os leitores podem participar do diálogo, tanto como leitores ou como enunciadores, através de comentários aos textos dos enunciadores, no entanto, quem direciona o diálogo são os enunciadores. O que caracteriza a relação entre os textos é a temática em que são agrupados e a co-referenciação.

H. P. Grice, analisando os traços do discurso (Logic and Conversation – parte das William James Lectures, 1967), diz que os diálogos são:

Pelo menos até certo ponto, esforços cooperativos, e cada participante reconhece neles, em alguma medida, um propósito comum ou um conjunto de propósitos, ou no mínimo, uma direção mutuamente aceita. Este propósito ou direção pode ser fixado desde o início (…) ou pode evoluir durante o diálogo; pode ser claramente definido ou ser bastante indefinido a ponto de deixar aos participantes bastante liberdade (…). Mas a cada estágio alguns movimentos conversacionais seriam excluídos como inadequados.

Esta tentativa de definição do que seria um diálogo, aplicada ao processo de construção do Satunsat, nos parece bastante esclarecedora. Sem dúvida, o Satunsat é o resultado de um esforço cooperativo direcionado. Os participantes reconhecem os propósitos comuns e aceitam a direção tomada. Quanto à fixação do propósito e direção, parece não haver nada tão definido a princípio; parece mais que o ‘diálogo’ vai tomando forma ao longo do caminho, sendo construído participativamente, com bastante liberdade dos enunciadores. A imagem que se pode formular é de quatro pessoas pesquisando esse labirinto e montando/inventando, através do diálogo dos textos, um mundo possível, onde as informações vão se somando e revelando. O leitor, por sua vez, recebe os relatos desses viajantes-pesquisadores-inventores e com esse conjunto de textos poderá montar ou intuir um mundo labiríntico possível e coerente. O que ocorre aqui é que a significação de um texto está em algo grau contextualmente dependente. E como este mundo está em constante construção (é um mundo inacabado), provavelmente ficarão lacunas, vácuos semânticos, e haverá, com certeza, informações desencontradas.

Os entes deste mundo (como o Cronópio) vão sendo construídos através da co-referenciação nos textos do Satunsat, o que limita, de certa forma, o contexto significativo. Esse mundo se quer autóctone, um mundo laboratório numa redoma, criando-se a partir das auto-referências num labirinto de textos, numa lógica não simplificada e mais ou menos assistemática, repetindo artificialmente o processo de nascimento de um contexto ou mundo possível. Aos mesmo tempo em que a maioria dos textos pode ser lida e compreendida satisfatoriamente isoladamente, parece que o Satunsat quer ser entendido como uma composição pictória mais do que como um conjunto enciclopédico de textos independentes.

Voltemos então ao nosso texto, agora sabendo que a resposta que procuramos pode estar nos outros textos da categoria Cronópios. São 28 os textos nesta categoria e o leitor terá o trabalho de se inteirar das informações que se encontram neles para poder formar seu conhecimento compartilhado de mundo sobre os cronópios. Talvez não consiga depois de tudo isso, saber exatamente o que significa aquela carta, mas com certeza estará num caminho mais avançado de entendimento.

Coerência do texto

A coerência de um texto se dá em diversos níveis e também em diferentes aspectos do texto. Já observamos alguns desses aspectos do texto sob análise, como a forma de apresentação do texto (esquema, script, etc) e contextualização. Cada leitor ativará as estratégias e fará as conexões que achar necessário para fazer o texto ter sentido / ser coerente, contudo, há tipos de coerência que poderão ou não serem satisfeitas no texto. No corpo da carta parece ter havido um deliberado abandono da preocupação com a coerência sintática, por exemplo, uma vez que a coerência semântica irá se manifestar independente desta. Não há conectivos, uso de pontuação, pronomes, marcadores de tempo, etc. Já a coerência semântica, a relação entre significados dos elementos em seqüência no texto e entre os elementos do texto como um todo, poderá ser percebida e remontada se aceitarmos, cooperativamente, a nova maneira de entender a relação entre os elementos seqüenciais do texto (os fatos, acontecimentos, alegrias e desgostos da vida, ou como queiramos entendê-los). Poderíamos também observar a coerência estilística, como os elementos são usados neste texto e se respeitam um mesmo padrão de estilo em relação aos outros textos do mesmo espaço contextual; ou ainda a coerência pragmática, vendo-se o texto como uma seqüência de atos de fala.

Não desejamos aqui fazer uma análise do texto em questão, mas apenas apontar os preceitos que regem o atual estado dos estudos de textos (construção de sentido, coerência textual) e caminhos que poderiam ser seguidos pelos leitores a fim de obterem êxito em sua tarefa de construção de sentido na recepção dos textos.

3. Conclusão

A leitura do conjunto dos textos sobre os cronópios, sendo textos com uma perspectiva muito mais estética que informativa, talvez acabe por despertar no leitor uma nova perspectiva do processo de criação do texto, e talvez ele venha a compreender que a experiência da busca de significado, esse jogo em busca do sentido das coisas, esse caminho pelo labirinto, seja exatamente o que o Satunsat representa e espera dele, no desafio de cada unidade textual. A busca de significados através dos jogos estéticos, se não dá respostas exatas, pode pelo menos instigar questionamentos e fazer o leitor mergulhar em outro tipo de experiência, abrindo seus sentidos para diferentes perspectivas da realidade dos textos.

Podemos tentar mergulhar no texto da carta, lendo atentamente cada palavra e nos perguntando o que cada uma representa para nós e o que pode representar para um cronópio moribundo em seu leito, pensando em seu filho, e assim, quem sabe, intuir que essa tentativa de comunicar seja o máximo do ensinamento que se pode transmitir. Há uma mensagem sublinear possível. Talvez este cronópio esteja nos dizendo o que sua vida significou e a seu tempo o pequeno cronópio perceberá o mesmo: aquela carta representa tudo o que acontece na vida, esses acontecimentos desconexos, sem conectores, tudo acontecendo numa seqüência ininterrupta (viver sofrer entreter locomover entorpecer utilizar… vermes gatos cavalos trens aeroportos… adulto deveres compromissos correr pensar agir trepar amar sofrer não crer evitar entender…), tudo o que acontece na vida, da forma como acontece. E a cada ser cabe a árdua tarefa de organizar esses acontecimentos, na missão que talvez seja a única razão de viver: dar sentido às coisas, orientar o caos, dar sentido a uma carta de um pai moribundo, dar sentido à vida.

5. Bibliografia
1) Koch, I.G.V. & Travaglia, L.C. Texto e coerência. São Paulo, Cortez, 1989, p.26. in Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras, V1 , Mussalin, F., Borges, A.C. (orgs.) – São Paulo, Cortez, 2001, p.257.
2) Koch, I.G.V. & Travaglia, L.C. Coerência textual, 8a ed. São Paulo, Contexto, 1998
3) Bakhtin, M. Marxismo e filosofia da linguagem, São Paulo, 1986, p. 113.