Tucanaguaca

Caro irmão,

Os recursos técnicos neste fim de mundo se resumem a esta máquina de escrever e aos serviços de correio com seu colador automático de selos. Quanto à máquina, podes ver que a fita não roda sozinha, e tenho que prestar atenção para rodá-la com o dedo a cada dez marteladas. Outro problema é que ela salta dois espaços em vez de um quando lhe dá nas gadelhas. E desse modo fica bastante difícil porque pago por tempo de uso e não pelo número de páginas; parece-me que não querem consertá-la, pelo que intuí na conversa com a assistente de emissão, uma índia de cabelos de fogo com mãos delicadas demais e peitos insinuantes. De modo que terei que ser breve. Das andanças pelas terras altas descobri em Tucanaguaca um vídeo, não sei de que origem, na biblioteca municipal, e do que pude compreender e nos interessa segue uma transcrição. Trata-se de uma entrevista, mas não tenho datas ou nomes. E porque veio para esta cidade não faço idéia. O vídeo foi feito no que parece ser uma catacumba moderna, com ar refrigerado e luz artificial. As paredes são recobertas por pequenas placas prateadas, como uma pele escamada de peixe ou cobras. E há apenas duas pessoas, um entrevistador e o entrevistado, além do cinegrafador, por certo. Denominarei o entrevistado de A e o outro de B, e assim será para vosso entendimento e etc. o que é essencial segue. Favor solicitar ao consulado recursos extras para meu retorno seguro e para subornos e propinas inevitáveis no percurso.

A – Estava lendo aqui uma reportagem sobre uma das primeiras caçadoras de coelho. Ela aparentemente os cobria com umas cordas. Vou mostras para o senhor.
B – Si.
A – E andava sobre eles, mas eles assumiam uma certa camuflagem de tartaruga marinha. Ela conseguia capturar mais ou menos la cuantidad de um por semana, uma tartaruga falsa que em realidad era um coelho da Bavária.
B – [assustado, incrédulo] Um conejo da Bavária.
A – Pois então, diga…
B – Ah, hum, si, é…
A – A que veio aqui em las altitudes?
B – Los conejos estan vifos, si, siempre.
A – Actualmente. Eles têm conseguido sobreviver nesses tempos difíceis de inseguridad habitacional e coletiva… Não é pouca coisa.
B – My Spanish is a little… si, si.
A – Talvez queira um copo de água.
B – Ah, por supuesto, si. [pausa] Cerveza, tienes? [aponta para algo].
A – Los conejos são pouco confiáveis de punto de vista de potabilidade da água que é achada em seu entorno. Podemos crer que eles não conhecem o cloro…
[Aqui o entrevistado se retira, aparece a imagem da foto da caçadora de coelhos montada sobre a tartaruga marinha – coelho disfarçado, e há um corte. Aí volta:]
A – … mucho gusto, pode dizer para eles, mucho gusto, prazer em conhecê-lo, e depois ele vá a dizer “eu sou um coelho da bavária, não sei se há escutado falar sobre mim” e supostamente eles são amigáveis, mas ninguém os conhece diretamente. Eles abrem a porta da casa, te convidam à sala, convidam com cerveja Bavária, e te introduzem grandes falas sobre variados temas [outro corte].
A – [lendo] “…colocado na imediaciones de Tucananguaca”, sabe? A leste de Machu Pichu?
B – No.
A – Machu Pichu, a oeste de Tucananguaca? Estes são uns gráficos que explicam como eram feitas naquela época de sequía as trampas para coelhos, quando eles eram perseguidos por justificações injustas…

Do que nos interessa é isso. Depois eles começaram a falar sobre os insetos, em inglês, e discutem se eles usam “shoes” ou “no shoes”, e o entrevistador está em dúvida se deve usar “don’t” ou “doesn’t”, e pergunta ao cinegrafador “what about my stress?”, etc.

E concluído, acrescente seus comentários e que conste dos autos, dou fé, etc, etc. Agora a fita travou definitivamente.

Seu irmão

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